Estratégia de Negócios

Por que as nações fracassam? E por que as organizações fracassam?

O crescimento sustentável não depende apenas dos recursos disponíveis, mas da capacidade de desenvolver pessoas, relações e instituições que sustentam a prosperidade.

Uma entrevista pode abrir uma nova perspectiva. Um livro pode nos levar a questionar convicções que construímos ao longo de anos.

Foi o que aconteceu comigo ao assistir à entrevista de Felipe Salto ao programa Opera Mundi, conduzido por Breno Altman. A conversa me levou à leitura de Por que as Nações Fracassam, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2024, ao lado de Simon Johnson.

A leitura vale a recomendação. Mas, principalmente, vale uma reflexão que ultrapassa a economia e chega ao universo das organizações.

Por que algumas nações prosperam enquanto outras, mesmo dispondo de recursos naturais, capacidade produtiva e pessoas talentosas, não conseguem sustentar seu desenvolvimento?

E, ampliando a pergunta: por que tantas organizações, mesmo contando com bons profissionais, tecnologia e oportunidades de mercado, encontram dificuldades para crescer de forma consistente?

A prosperidade não nasce apenas dos recursos

A tese central de Acemoglu e Robinson é que a prosperidade de uma nação depende fundamentalmente da qualidade de suas instituições políticas e econômicas.

Os autores questionam explicações que atribuem o desenvolvimento predominantemente à geografia, ao clima, à cultura ou à abundância de recursos naturais.

O que faz a diferença, argumentam, é a maneira como uma sociedade organiza suas instituições, distribui oportunidades e estabelece incentivos para trabalhar, empreender, investir e inovar.

Eles distinguem dois modelos institucionais.

As instituições inclusivas permitem uma participação econômica mais ampla, protegem direitos, estimulam a inovação e criam condições para que diferentes grupos contribuam para a prosperidade coletiva.

As instituições extrativistas, por sua vez, concentram poder e oportunidades, preservam privilégios e limitam a participação de parcelas da sociedade.

A conclusão é provocadora: não basta uma sociedade possuir recursos. É preciso construir condições para que esses recursos se transformem em desenvolvimento.

E essa ideia me levou a pensar nas organizações.

É possível crescer sem desenvolver o ecossistema?

Como empresária, conselheira e educadora, há muitos anos trabalho com transformação organizacional, crescimento de negócios e educação executiva, acompanhando empresas em diferentes momentos de suas trajetórias.

Uma questão aparece com frequência: buscamos acelerar resultados sem necessariamente transformar as condições que deveriam sustentá-los.

Queremos vender mais, mas nem sempre investimos no desenvolvimento dos nossos clientes.

Queremos fornecedores mais eficientes, mas frequentemente estabelecemos relações comerciais que comprometem sua capacidade de investir e inovar.

Queremos profissionais preparados para um mercado em transformação, mas nem sempre criamos ambientes que favoreçam aprendizagem, autonomia e desenvolvimento.

Queremos empresas inovadoras, mas ainda encontramos estruturas de liderança que concentram decisões, restringem a colaboração e resistem a novas perspectivas.

Não se trata de afirmar que uma empresa funciona como uma nação. São sistemas diferentes, com responsabilidades e mecanismos próprios.

Mas existe uma reflexão que podemos transportar de um universo para outro: a prosperidade de um sistema depende também das condições oferecidas para que seus participantes se desenvolvam.

Uma organização não existe isoladamente. Ela faz parte de uma rede de clientes, fornecedores, profissionais, parceiros, instituições e comunidades.

Quando olhamos apenas para o resultado individual, podemos deixar de perceber as fragilidades que estamos criando no conjunto.

Afinal, como construir uma economia robusta sem empresas fortes? Como ter empresas fortes sem clientes capazes de comprar, fornecedores capazes de entregar e profissionais preparados para transformar?

A tecnologia acelera. Mas o que estamos acelerando?

Vivemos um período em que a inteligência artificial amplia extraordinariamente nossa capacidade de produzir, analisar informações, automatizar processos e tomar decisões.

Para entregar resultados relevantes, um sistema de IA precisa de contexto, informações adequadas e objetivos claros.

Com as organizações acontece algo semelhante.

Podemos incorporar ferramentas sofisticadas e, ainda assim, preservar modelos de gestão que dificultam a colaboração, o aprendizado e a inovação.

Podemos automatizar processos sem questionar se eles continuam fazendo sentido.

Podemos aumentar a produtividade de uma área enquanto comprometemos a eficiência do conjunto.

A tecnologia potencializa capacidades, mas não substitui a necessidade de direção, identidade e coerência.

Talvez um dos maiores desafios das lideranças contemporâneas seja justamente compreender que a transformação tecnológica precisa caminhar ao lado da transformação organizacional e humana.

Caso contrário, corremos o risco de acelerar estruturas que já não respondem às necessidades do presente.

O crescimento também é uma questão de identidade

Ao longo da minha trajetória como empresária e conselheira, tenho observado que as dificuldades de crescimento nem sempre começam na estratégia comercial, no produto ou na operação.

Muitas vezes, elas estão relacionadas à maneira como a organização compreende seu papel, às crenças de suas lideranças e às relações que estabelece com o ambiente.

Uma empresa que se define exclusivamente pela capacidade de capturar valor tende a tomar decisões diferentes daquela que também se reconhece como parte de um sistema de geração de valor.

Essa diferença aparece nas escolhas cotidianas.

Na forma como negocia com fornecedores. Na maneira como desenvolve profissionais. Na relação que constrói com os clientes. Na disposição para compartilhar conhecimento, estabelecer parcerias e contribuir para o fortalecimento do mercado em que atua.

Não estou defendendo que empresas abandonem seus objetivos econômicos. Pelo contrário.

Lucro, produtividade e competitividade são fundamentais para a continuidade dos negócios.

A questão é compreender que a busca por resultados individuais não precisa acontecer à custa do enfraquecimento do sistema do qual dependemos.

E que, em determinadas circunstâncias, desenvolver esse sistema pode ser uma das decisões mais inteligentes para sustentar a competitividade no longo prazo.

Que tipo de liderança o futuro exige?

Uma das reflexões mais interessantes de Por que as Nações Fracassam está relacionada à distribuição de poder e à resistência à mudança.

Os autores demonstram como grupos que se beneficiam de determinadas estruturas podem resistir a transformações capazes de ampliar a prosperidade coletiva.

Essa discussão também merece atenção no mundo corporativo.

Quantas vezes preservamos modelos de gestão porque funcionaram no passado?

Quantas vezes confundimos liderança com controle?

Quantas vezes defendemos mudanças nos processos, mas evitamos questionar nossas próprias atitudes e formas de pensar?

Transformar uma organização exige mais do que implementar novas ferramentas ou redesenhar estratégias.

Exige disposição para rever decisões, relações, incentivos e comportamentos, além de uma liderança também esteja disposta a se transformar.

 

Mudar o contexto para mudar os resultados

Volto à pergunta que deu origem a esta reflexão: por que as nações fracassam? E por que as organizações fracassam?

O livro não oferece uma resposta direta para o mundo empresarial. Mas nos convida a observar algo essencial: os resultados não são produzidos apenas pelas capacidades individuais. Eles também são consequência das estruturas, relações e incentivos que construímos.

Se queremos resultados diferentes, precisamos olhar para o contexto que os produz.

Se queremos crescimento consistente, precisamos desenvolver as condições que permitem sustentá-lo.

Se queremos empresas mais fortes, precisamos compreender como fortalecer também as pessoas e os ecossistemas dos quais elas dependem.

E se queremos transformar nossas organizações, talvez seja necessário começar pela identidade que assumimos como líderes.

Que tipo de liderança estamos dispostos a exercer para construir organizações capazes de prosperar sem enfraquecer o mundo ao seu redor?

Essa é uma pergunta que merece acompanhar nossas decisões.


Por Monica Lobenschuss

Leitura recomendada: Por que as Nações Fracassam: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza, de Daron Acemoglu e James A. Robinson.

Este site usa cookies e tecnologias afins, que são pequenos arquivos ou trechos de texto baixados para um aparelho quando o visitante acessa um site ou app. Para saber como ver os cookies deixados no seu aparelho, confira Os cookies que utilizamos